REINVENTAR A POLÍTICA É PRECISO!

06/05/15 - 11h28 COLABORADORES

Escrevo este texto após ver as imagens chocantes do “confronto” dos professores com os policiais militares do governo do Estado do Paraná. A palavra está grafada entre aspas para que possamos refletir sobre a premissa de um confronto feito entre um governo que possui a força policial, armas, estratégias entre outras inteligências contra uma classe que exerce seus direitos de livre manifestação. Partindo da ideia de que as armas não são as mesmas, ou seja, não há condições de igualdade no “confronto”, tal expressão deveria ser revista por parte da grande mídia e logo, do senso comum.

Estamos diante de um cenário que em nada se apresenta como democrático. Talvez devêssemos pensar em formas de democratizar a democracia. Torná-la democrática, acessível, parte do nosso dia a dia. É preciso estar atento para observar o quanto trazemos de heranças dos regimes autoritários. Parece caricato pensar e utitilizar essas expressões, mas diante dos acontecimentos recentes é preciso nomeá-los, correndo o risco de que, ao nomear práticas como estas, estamos limitando seus significados.

Precisamos olhar a política além dos processo eleitorais ou da gestão dos espaços públicos. A política deve ser resultado de disposições, investimentos e engajamento dos agentes, uma coisa dinâmica que é construída a partir das convivências humanas. Deve refletir a este respeito. Os governos vivem em estados de comando permanente. Talvez uma herança do nosso passado monárquico onde toda a vida dependia do rei, o supremo, imperador. No entanto, passamos, aqui no Brasil, por um processo de redemocratização no final do século passado.

Entretanto ainda encontramos medidas que são contrárias às ações democráticas advindas de governos eleitos. Vivemos o tempo da mudança do local da política. Essa mobilidade permitiu ao cidadão comum participar do enredo atuando nele. Este cidadão passou da condição de expectador para a de protagonista. Desempenhando papel cada vez mais próximo do seu dia a dia. Neste sentido, a política deve ser reinventada. Transformada a cada relação estabelecida entre cidadãos e governos. Embora esta equação nem sempre acabe com um resultado satisfatório, especialmente para os cidadãos.

O governo eleito para o mandato 2014-2018 no Espírito Santo parece negligenciar os diversos gritos que vem da rua. Parece governar para certa camada de poucos e raros. Digo isso pois na semana passada, na reunião do Conselho Estadual de Cultura as vozes oficiais negligenciaram por completo as vozes dos conselheiros que representam a classe artística no Estado e lamentavelmente se apropriaram dos discursos autoritários e de força para fazer valer a voz do governo.

Créditos: Tati Hauer - Bonde Núcleo Móvel de Comunicação

O resultado é ainda muito cedo para apresentar mas, ouso fazer comentários. Os artistas e produtores culturais do Espírito Santo estão em ocupação na sede da Secretaria Estadual de Cultura traçando planos e realizando convivências políticas, artísticas e sobretudo, de diálogos entre a classe para propor ações que contribuam para as políticas públicas de cultura no Estado. É imprescindível que estas vozes sejam ouvidas (ou a surdez oficial matará as chances de construir nova forma de fazer política), para que tenhamos políticas públicas de cultura cada vez mais próximas da rua, cada vez mais próximas do cidadão que necessita experimentar o mundo esteticamente e isso é direito fundamental, expresso na constituição.

A política não pretende resolver os problemas todos. Isso seria uma pretensão de dar inveja aos diversos senhores mundo à fora. Mas estes artistas que ora encontram-se em ocupação buscam a garantia de oferta pública de eventos culturais feitas com dinheiro público que não se comprometam com relações espúrias, feitas em gabinetes, sem prestação de contas e com cifras de porcentagem que nada deixam claro os processos dos quais são feitos.

É preciso reinventar a política. É preciso olhar para ela não como olhamos para o outro, mas é preciso olhar como parte deste processo de convivências. Reinventar a política é se encontrar participante deste processo. Protagonista da ação de democratizar a democracia. É preciso que os governos não alimentem os cidadãos apenas com a retórica da legalidade. Pois legalidade por legalidade, os processos de corrupção que vemos na tv todos os dias são, via de regra, legais, na forma da lei. As grandes campanhas financiadas pelas empreiteiras e outras, estão previstas em lei, dizem os depoentes com seus discursos persuasivos.

Portanto, reinventar a política é compreendê-la não como uma massa única de pensamentos, mas com fluxos e contrafluxos que enriquecem o diálogo. É preciso ouvir as vozes da rua. É preciso reinventarmo-nos.

Texto por:
Vinícius Lordes, 30.04.2015

*Créditos para a foto de capa: Gibran Mendes - Registro das manifestações e resistência dos professores em Curitiba - PR - Brasil - Maio de 2015.

*Créditos para a foto entre o texto: Tati Hauer - Bonde Núcleo Móvel de Comunicação - Registro da Reunião Extraordinária do Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo (CEC) na última segunda feira, 04 de maio de 2015.

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