O SANGUE DA CIDADE

03/05/17 - 20h49 COLABORADORES

Há pouco mais de um ano, iniciei uma jornada, um mergulho. Eu me joguei de peito aberto em uma cidade que mal sabia o caminho do aeroporto até o centro. O fato é que minha vida sempre se equilibrou entre trânsitos e permanências, já que nasci no Rio de Janeiro e cresci em Vitória - vivendo em ponte aérea entre os dois municípios há 24 anos.

Por contraste, logo vi que as diferenças entre Vitória-Rio e Curitiba eram suficientes para montar uma lista grande com motivos para não permanecer. Mas permaneci. Por seis meses. O que pude notar com uma clareza que até então não havia me ocorrido é que, apesar de o clima ter influência no comportamento de qualquer comunidade, o que faz uma cidade ser o que é são as pessoas que vivem nela. Urbanicidade.

O sangue da cidade somos nós. Em Curitiba, as pessoas se juntam e fazem coisas grandes, memoráveis. Criaram uma nova praça por pressão do movimento cicloativista. Mudaram o natal de mais de duzentas pessoas em situação de rua por iniciativa popular. Realizaram a primeira jornada nacional “mulher sem violência”, com o apoio de secretarias municipais e universidades - reflexo da força do movimento de mulheres na política de Curitiba. Tem shows de graça nas praças, bazares, festivais.

Por outro lado, no convívio social, muitas pessoas foram rudes ou descorteses comigo de uma forma muito natural. Então, de cara concordei com a fama que o curitibano tem, mas logo conclui que esse comportamento é cultural. E quando alguns (longe de mim querer generalizar) agem assim não é como se quisessem me ofender individualmente, são os costumes. É claro que conheci pessoas incríveis na cidade modelo, mas esse não é o ponto. O ponto é que percebi uma assincronia por lá que, volta e meia, percebo em outras cidades também, como em Vitória.


Por isso, fiquei me perguntando durante todo o tempo que estive em Curitiba e acho que ainda estou meio sem resposta: por que agir com tanta paixão em ações culturais e politizadas e com tanto desdém no cotidiano?

Nossas ações culturais não são independentes do nosso comportamento social. Aliás, é o nosso comportamento social que nos conecta a esse tipo de interação “urbanocultural”. Eu conheci o Assédio Coletivo, por exemplo, indo aos festivais produzidos pelo grupo e me relacionando com as pessoas que o fundaram. Depois disso, participei durante um ano do coletivo.

O que quero dizer é que nós, o sangue da cidade, é quem temos o poder de transformação, mas - como cidadãos do mundo - esse poder é ainda mais eficaz e contagioso quando nos dispomos a conviver com a diferença e a transformar juntos. Melhor: em tempos de autoafirmação em redes sociais, encontrar qualquer manifestação cultural/política/afetiva genuína é como chegar ao fim do arco-íris.

Levanto aqui uma bandeira subjetiva, sei. Mas por que não? Em um meio movimentado por ofícios, protocolos, atas e reuniões em salas mal ventiladas, considero urgente que haja um pouco de poesia para oxigenar nossas discussões. Em um meio cheio de palanques e aplausos, é especialmente necessário que coloquemos contra a parede os princípios de uma indústria cultural cada vez mais forte. É vital que equilibremos nossa necessidade de autoarfimação com aquilo que há de orgânico na cidade. E que, nos diálogos e encontros, o ouvir seja tão genuíno quanto o falar.

Desculpem por ser tão óbvia em minhas descobertas. Mas há clichês que, vez ou outra, me voltam à tona como novidades.

Por Isabella Mariano

Ilustração: Amanda Brommonschenkel

Foto: Isabella Mariano