O NÃO LUGAR DA DIFERENÇA OU A REVOLUÇÃO É SAPATÃO

30/06/15 - 12h49 NOTÍCIAS

No meio do caminho de Drummond tinha uma pedra; no de Dante, autor de A divina comédia, a via crucis para o Inferno. Atualíssimos, tanto a pedra quanto o inferno têm estado muito em voga: na mão de alguém, na boca do povo – sempre mirados no outro. O outro é aquele dessemelhante a nós (“como toda e qualquer pessoa”, eu e muitos pensamos), que incomoda, que ameaça a tão arbitrária normalidade, para alguns. Recentemente, a pedra foi lançada à cabeça de uma menina candomblecista de 11 anos, vítima de intolerância religiosa, enviada rudemente a gritos “ao inferno” por um grupo fundamentalista (Folha de São Paulo, 16.06.2015). No catálogo funesto de apedrejamentos consta também a morte, inclusive a pauladas, de um menino de 14 anos, por homofobia (Gazeta online, 13.06.2015). Assim como eles, negrxs, pobres, gays/lésbicas, travestis, diariamente têm sido alvo de pedradas – simbólicas/concretas, reais – e submetidos ao inferno na Terra por pessoas de bem (sic), justamente por representarem o outro. Já dizia a máxima sartriana, “o inferno são os outros”... Por que, afinal, a diferença incomoda tanto?

Episódios como esses, tão lamentáveis quanto assustadores, sinalizam que os tempos é que são outros, sombrios. Se os anos 1960/70 trouxeram o amplo debate sobre modos diversos de vivência sexual e comportamental, a emancipação dos corpos antes agrilhoados ao doutrinamento do binômio religião/tradição, de lá pra cá é patente o avanço na contramão. O retrocesso à tabuização dos desejos, à institucionalização da ignorância, à perda do direito sobre nossos corpos e afetos está condensado na instauração da barbárie contra a diferença – neste caso, especificamente, sexual e de gênero. Da contracultural revolução sexual aos anos 00 – marcados pela democratização da informação via internet –, o cenário mundial tornou-se palco para as maiores arbitrariedades e violências aos direitos humanos da comunidade sexodiversa. Na Rússia, por exemplo, Vladimir Putin, o czar homofóbico, instalou um regime de ódio e perseguição a gays e lésbicas: em muitas regiões, medidas proíbem demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo, sob pena de prisão para infratores; a Suprema Corte do país proibiu a realização de paradas gays em Moscou por cem anos; foi aprovada a lei que proíbe o que chama de “propaganda homossexual”, sem, no entanto, caracterizar o que seria exatamente isso (BBC Brasil, 25.01.2013). Todas as (des)medidas contam com o apoio irrestrito da Igreja Ortodoxa russa.

Embora a ex-União Soviética ostente uma constância estarrecedora nos casos de agressão e homofobia, somos nós, o Brasil das cores carnavalescas, que mais registramos crimes homotransfóbicos. Um gay é morto a cada 28 horas e lideramos o ranking mundial de assassinatos de transexuais e travestis (Brasil Post, 13.02.2014). Impressiona a brutalidade dos crimes e é notória a presença do suicídio entre essas mortes. Temos acompanhado o fortalecimento da bancada evangélica nos espaços deliberativos de nosso Estado laico, numa sanha vigorosa contra a igualdade de direitos e a informação. Os execráveis pastores deputados, e suas atarantadas ovelhas eleitoras, atribuem à luta por direitos iguais – entre eles, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o consequente reconhecimento de outros formatos de família – a reinvindicação por privilégios. Irônico: privilégio seria se gays e lésbicas não pagassem impostos, como as Igrejas. Na base da incansável peleja contra a comunidade LGBTTT está a privação da informação, que reforça os estereótipos sexuais e de gênero. O discurso conservador-religioso defende a biologização do sexo, apoiada na criação bíblica de Adão e Eva e na reprodução humana, e a patologização das sexualidades não-heteronormativas, que prevê a suposta cura-gay. Para isso, um intenso movimento contra informativo foi instaurado. O kit contra a homofobia, que seria distribuído a alunos do ensino médio das escolas pelo país, foi vetado pela presidente por pressão da bancada evangélica. Se sua distribuição estivesse em vigor, talvez uma morte tivesse sido evitada: um menino de 14 anos foi espancado na escola até a morte por ter pais gays (Extra Globo, 09.03.2015). De igual modo, nos Planos Estaduais de Educação, que traçam diretrizes para o ensino nos próximos dez anos, foram vetados trechos que têm por meta o combate à “discriminação racial, de orientação sexual e de identidade de gênero”, em oito estados brasileiros. No Espírito Santo, o lugar mais perigoso para mulheres e o segundo para negros (Brasil Post, 03.03.2014), o deputado Padre Honório (PT) esteve à frente da discussão, defendendo a supressão no documento, que foi aprovada. O que a legislação e as estatísticas evidenciam é que a falta de informação, incentivada por segmentos conservadores, alinhada à dificuldade de empatia têm ampliado a exclusão e subtraído pessoas da vida.

Por outro lado, como uma luz colorida no fim do obscuro túnel, iniciativas progressistas têm fortalecido a luta pelos direitos humanos. O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecido e legalizado pela Suprema Corte em todos os EUA (Carta Capital, 26.06.2015). Aqui no Brasil também é reconhecida a união estável de casais gays, apesar de um projeto de lei que apresenta o núcleo familiar constituído apenas por homem e mulher, esdruxulamente referendado numa enquete no site da Câmara dos Deputados. (Aliás, essa votação na internet é ultrajante, no mínimo. Como querem tornar público o que é privado? De que maneira alguém tem o poder de legitimar a configuração familiar alheia? Quem atende, afinal, a esse modelo tão fantasioso de família, quando majoritariamente poucas correspondem ao padrão propaganda-de-margarina? Por que uma configuração exclui a outra?) Em São Paulo foi criada uma bolsa de um salário mínimo mensal para que, inicialmente, cem travestis e transexuais voltem a estudar (O Globo, 09.01.2015). A lei do feminicídio – que caracteriza o homicídio de mulheres por questões de gênero e se apresenta como uma resposta mais rigorosa aos altíssimos índices de violência contra a mulher – foi aprovada (Notícias Uol, 17.03.2015). No Rio, a lei de combate à discriminação sexual é sancionada pela Alerj (G1 Globo, 25.06.2015). Essas notícias sinalizam um caráter progressivo no que tange a legislação brasileira, fruto de muita pressão e luta dos movimentos sociais. No plano cotidiano, infelizmente, o preconceito e a discriminação são prática comum. O discurso de ódio, travestido de liberdade de expressão, promove ainda mais exclusões e endossa os crimes de motivação homotransfóbica. A militância no convívio social se mostra como uma ferramenta para a desconstrução e combate de opressões.

Recentemente, fui eu a vítima de discriminação. Eu e minha companheira fomos, em dois momentos e em dois lugares distintos, censuradas pela mesma pessoa, que descobrimos ser dona de ambos os estabelecimentos. Estávamos risonhas, tomando uma cervejinha, com troca de olhares carinhosos e afagos nos cabelos nos caracterizando como um casal, quando um sujeito se sentiu no direito de vir à mesa, muito convicto, afirmar o quanto – por conta de uma amostra grátis de afeto lésbico e apesar de “respeitar as opções alheias” – nossa presença ali não era bem-vinda. Cagou pela boca, virou as costas e foi-se embora, levando junto consigo meu apetite. Na primeira vez fiquei sem reação, porque nunca algo dessa natureza havia acontecido comigo. Na segunda, a impotência se tornou potência de ação: organizei, num ato contra a homofobia, um beijaço em um dos bares em que fomos discriminadas.

Apesar de um jornal local ter cometido a inconveniência de furar o ato ao entrevistar o dono do estabelecimento antes de nossa chegada, aparecemos lá e mais bonito não poderia ter sido. Ao invés de vários beijos simultâneos, demos as mãos, formamos uma roda ao redor das mesas (que estavam cheias, por ser o dia dxs namoradxs), e fizemos um jogral, que ressoou por todo o lugar. Declaramos que, naquele estabelecimento, um casal homoafetivo tinha sido desrespeitado e que, no dia dxs namoradxs, estávamos ali por visibilidade e porque merecemos estar confortavelmente em todos os espaços como toda e qualquer pessoa. Acho que outras coisas foram ditas, mas a memória escapa umas coisas e internaliza outras, como o rosto de uma senhora emocionada à minha frente, concordando convulsivamente com a cabeça a cada palavra nossa. Foi realmente muito emocionante ter estado ali com todos os companheiros e todas as companheiras. O dono ficou todo o tempo fora, do outro lado da rua, com um carro da guarda municipal. Tenho certeza de que fomos apenas um de muitos outros casais que sofreram situação semelhante, quiçá pior – como as trans e as travestis, que sofrem todos os dias. A luta segue. Transformando as pedras em flores, somando ao invés de sermos subtraídos, seguimos.

por Yasmin Zandomenico,
graduanda em letras português,
aprendiz da língua universal dos afetos.

*Foto de capa e do beijaço: Ingrid Castilho
*Ilustração da foto de capa: Telmi Adame.

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