NO SE GANA, PERO SE GOZA

11/06/15 - 12h00 NOTÍCIAS

Quando duas amigas da Ufes me convidaram pra participar de um coletivo, pra fazer uns impressos, eu não fazia a menor ideia no que eu tava me metendo. Não sabia nem o que era um “coletivo”, mas fingia que sabia. Muitas reuniões, conversas, cervejas e cafés depois, o coletivo, que agora tinha nome, decidia lançar um fanzine, com o mesmo nome porque foi um nome que demorou pra sair: Foi à Feira. Eu também não sabia o que era um zine. Mas fingia que sabia.

Depois de um tempo de planejamento percebi que um zine era a minha chance de fazer algo que eu sabia que precisava fazer: uma fotonovela-noir-gore-retrô. Pensando agora em como começar esse texto, em como começar a falar de zine, explicar o que é um zine, percebi que essa é a metáfora perfeita. Um zine é aquela chance de fazer alguma coisa que no fundo sempre esteve ali, pronta pra sair de você: voilà.

Eu acho besteira colocar limites físicos dentro dessa ideia. Acho que um zine é um tipo dos muitos e vários manifestos pelos quais a gente se comunica, manifestos visuais, audiovisuais, verbais, místicos, corporais, teóricos, platônicos. Claro que o termo, como qualquer outra palavra, está ligado a uma história que carrega consigo elementos gráficos que a gente pode considerar padronizáveis, mas eu não acho que vale a pena entrar nesse assunto.

FOIAFEIRA#2 from Foi à Feira on Vimeo.

Voltando ao Foi á Feira, fazem já uns cinco anos que a gente começou a jogar esse nome no mundo. Essas três palavras que viraram a minha (a nossa) desculpa oficial para continuar fazendo... bem, fazendo o que a gente queria. Bora fazer uma colagem gigante num papel cenário de dois metros? Bora catar uns cavaletes de campanha e botar uma galera pra pintar por cima? Bora fazer um vídeo gore sobre um ventilador assassino?

Conforme o tempo passou a gente teve que ir inventando formas novas de produzir conteúdo e envolver uma galera (afinal qual é a graça de fazer as coisas sozinho), arrumando aqui e acolá uma desculpa maior (editais, projetos maiores, prêmios, feiras) pra acelerar a produção. Daí entramos numas de experimentar formatos, fazer maluquices com os conteúdos, fazer impressos internacionais em mais de uma língua e produzir zines em menos de uma semana pra dar de graça pras pessoas, só por ser legal mesmo.

Isso me faz chegar no que talvez seja o ponto mais importante de toda essa história, além de ser também o título do texto. Se eu for colocar na ponta do lápis eu provavelmente investi muito mais dinheiro do que ganhei, mesmo depois de grandes sucessos de crítica e público (temos alguns best sellers que venderam milhares e saíram no NY Times mas não nos gabamos a respeito). Não me entenda mal, é perfeitamente possível transformar a produção em algo vendável e viável como fonte de renda, e existem vários exemplos disso aqui no Brasil mesmo. Acontece que talvez essa não seja a intenção. Talvez isso seja parte da graça até. Talvez seja possível produzir pra fora disso, produzir como válvula de escape.

Em compensação o Foi à Feira me trouxe um monte de coisa que... “não tem preço”. Deu pra aprender e ensinar um monte de coisa. Deu pra dar uma viajada, conhecer um monte de gente. Deu pra quebrar a cara também e falhar miseravelmente em algumas coisas (o que é bastante subestimado pela sociedade em geral).

Mas ainda acho que a melhor parte de tudo que veio nessa feira foi a noção de que eu, você, a gente, nóis tudo, podemos fazer o que a gente quiser. Independentemente da mídia, do mercado, dos seus pais que talvez nunca vão entender porque gastar dinheiro com um zine sobre maconha pra dar de graça pra maconheiro na Marcha da Maconha (quanta maconha). Independente, um pouco pobre, porém feliz. Não é todo mundo que tem uma fotonovela-noir-gore-retrô no portfólio.

Por Rayza Mucunã
graduada em gambiarra gráfica,
especialista em gastação impressa.
Desenha de vez em quando
e nunca escreve, só dessa vez.


Saiba mais em:
www.foiafeira.com.br
www.agoratenhoscanner.tumblr.com
rayzamucuna@gmail.com

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