A CRISE DE REPRESENTATIVIDADE - PARTE 1

06/04/17 - 14h32 COLABORADORES

Fato inegável: O país vive uma crise moral, política, social e econômica. Estamos imersos, afogados e em conflito com nossa civilidade. Diariamente somos testemunhas de atrocidades aos direitos humanos partindo de pessoas ou grupos movidos pelo ódio cego, enquanto presenciamos e recebemos informações de todos os lados da retomada dos abismos sociais, maniqueisticamente aplicados pelas “forças governamentais” que legislam em comum acordo com o interesse da classe economicamente dominante em detrimento da população como um todo.

Sofremos como nação, pois raras são as vezes que vemos os representantes “eleitos” agirem de acordo com um pensamento coerente com as demandas de toda a diversidade populacional. Esses representantes, sempre se posicionam “ao lado” de algum grupo de interesse específico, promovendo acordões, vantagens legislativas e negociações de “interesses”, sempre em nome de seus financiadores, ou como eles gostam de chamar: “eleitores”.

No interesse de ilustrar nossa atual representatividade no legislativo municipal, estadual e nacional. Apresento uma pequena exposição, do que parece ser óbvio, mas não custa nada ressaltar, sobre quem é realmente representado nas casas do poder legislativo. Os partidos, que dizem ter base e diretrizes ideológicas sólidas para eleger seus candidatos, ficam em segundo em plano quando percebemos quem realmente elege e financia os legisladores brasileiros.

Nacionalmente é possível perceber que nossos legisladores representam vários grupos de interesses, como por exemplo: Igrejas de diversos segmentos, que não pagam impostos e acreditam em algum tipo de doutrinação que cerceia a liberdade daqueles que não são coniventes com suas ideologias; Militares que englobam a indústria armamentícia nacional, internacional e a segurança pública e privada, e, de forma correlacionada, representantes do tráfico nacional e Internacional de armas e drogas, ou seja - a indústria do medo; e no embalo das drogas, as Indústrias farmacêuticas nacionais e internacionais, que “em nome” da saúde pública, promovem doenças em que elas mesmas, “por sorte”, têm a cura para vender.

As grandes construtoras também são bem representadas, afinal, um país que cresce é um país que constrói, e se antigamente eram rodovias, até ontem eram represas e casas populares, ou seja, muda de acordo com o novo acordo. Bem como a Federação das Indústrias, que são quem ditam o “termômetro da crise”, protagonizando ou grandes contratações e aberturas de fábricas, ou grandes demissões, greves e recessões. Os grandes conglomerados de Comunicação, com afiliadas cujos donos são os próprios políticos, não estão de fora, afinal, quem detém as ferramentas de manipulação de massa e temem a democratização da mídia compactuam entre si e tem forte braço no legislativo; bem como os Bancos, nacionais e internacionais, que são os grandes “financiadores” de tudo isso.

Não podemos esquecer a Macro Agroindústria, daqueles grandes agricultores, fazendeiros e coronéis que possuem áreas do tamanho de capitais, de onde saem mensalmente aquelas denúncias de trabalho escravo, bem como a Indústria internacional extrativista de recursos naturais, ou seja, a floresta amazônica, a água, a fauna, a flora, minério, petróleo etc.; A Indústria internacional de telecomunicações e nossa dependência à internet e celular; os interesses de grupos econômicos estrangeiros; Empresas de energia; Todos os quilômetros de pedágios e passagens e a grande indústria das privatizações das rodovias e dos transportes, terrestres, aéreo e portuário; sem falar nas “famílias políticas”; sindicatos; máfias; monopólios; cartéis e, no fim de tudo isso, nós, a população, em toda a sua diversidade e pluralidade, que até tem alguns representantes, mas em uma porcentagem pequena e muitas vezes limitada aos seus próprios recortes sociais.

Entretanto, somos ardilosamente massacrados por esses outros grupos, que se unem em bancadas de interesses, e transcendem a racionalidade e a moralidade das casas de legislação, transformando aquele espaço em um grande jogo de interesses escusos e busca pelo poder, aonde o povo é só audiência pública, tornando ainda mais evidente a discrepância entre quem é realmente representado e toda a pluralidade e necessidades da população.

Quando observamos a Assembleia Legislativa do Espírito Santo, os “eleitos” também representam grupos de interesse conflitantes com o bem estar da população capixaba. Podemos observar a presença de representantes das Igrejas; das grandes Mineradoras; da Codesa e a Indústria Portuária; do Transporte Rodoviário; de Empreiteiras e Construtoras; da Indústria da Celulose e derivados; a Indústria do Medo; da Agroindústria; da extração Pedras Ornamentais; dos Conglomerados de Comunicação; da Indústria da Farmácia e Planos de Saúde e tristemente não encontramos ninguém com um perfil de representatividade voltado para o interesse da diversidade e da pluralidade da população do Espírito Santo, ou qualquer movimento social por assim dizer.

Vitória, nossa capital, sofre ainda mais quando percebemos que o quadro de nossos vereadores refletem somente a representatividade de uma igreja, um bairro, ou algum cartel ou os interesses da exploração imobiliária. Temos 80 bairros, mas só 4 ou 5 bairros são representados, e nenhum desses senhores e senhora realmente representam a vontade da população de Vitória, agindo como verdadeiros ludibriadores do tempo em reuniões de câmaras onde nada fazem além de provocar e ofender uns aos outros, homenagear agrupamentos sociais que nunca têm seus direitos atendidos, tentar se apoderar de ideias alheias para autopromoção e usar de audiências públicas para tentar elevar a própria audiência. Numa prática desgastada e desgastante para a cidade, cujo o objetivo seja talvez o mesmo das outras casas de legislação. Esgotar os interesses e a paciência da população para que o “eleito” possa dar conta das demandas de seus financiadores.

Em vista dessa face da representatividade, em que, para além de partidos, são grupos de interesses privados que usam e abusam de seus “eleitos” para fins próprios, quase sempre atravessando direitos humanos, ambientais e sociais do país, seu povo e suas riquezas, podemos compreender ser este um dos grandes motivos de nossa atual crise política.
A crise da representatividade valida-se no sentimento de que nós, povo em geral, não somos representados pelos “eleitos” em toda nossa pluralidade e diversidade. Não conseguimos ser representados, pelo menos não em número relevante para rivalizar a disputa pelo espaço na casa de leis. Os poucos representantes da população digladiam-se com os representantes do capital, da indústria, do 4o poder, da indústria do medo, dos fundamentalistas, dos coronéis e nós, povo continuamos a sofrer derrotas, diariamente, por não sermos representados nesse estado de exclusão.

O que podemos fazer? Pelo menos todo mundo deveria buscar uma resposta prática para esta pergunta. Infelizmente não temos mais espaço para alienação dessa questão dentro de cada um de nós, cidadãos brasileiros. Não dá mais para viver alheio à realidade política de seu entorno. Para aqueles que têm opinião e se dizem politizados, chegou a hora de saírem de suas zonas de conforto do seu circuito político de debate online e partir para participação ativa, cobrança, acompanhamento e vigilância civil para com os representantes eleitos das casas de legislação.

Precisamos de novos modelos de representantes no legislativo. Precisamos de novas faces, novos valores e precisamos de representantes que representem a população como um todo. Que pense em políticas e leis inclusivas, e que coloque a felicidade do cidadão na frente da ganância política pelo poder. Precisamos de um novo fazer político, da difusão e empoderamento do cidadão pela informação e acesso à participação da construção das leis e decisões. Precisamos de representantes que lutem por toda a diversidade cultural brasileira, estadual e local, e que promova micro revoluções de cidadania para que os cidadãos voltem, ou comecem a valorizar o seu entorno para tornarem-se os próprios protagonistas da transformação que desejam.

Os moldes de administração pública e do “fazer político” no legislativo demandam novas propostas, novas narrativas de grupos com ideologias voltadas para os direitos humanos e os desafios sociais e ambientais do novo milênio. Sem novos protagonistas, empoderados pela participação civil, teremos que lidar com mais derrotas e cerceamento da liberdade realizados por esses grupos de interesses privados. A gente se encontra no caminho.

Por Daniel Morelo

Ilustração: Divina Comédia (Isabela Bimbatto)