A CRISE, A LITERATURA E AS EDITORAS INDEPENDENTES

24/04/15 - 22h00 COLABORADORES

Não faz muito tempo que li na internet uma declaração de uma grande editora/distribuidora sobre a crise no mercado da literatura. O que aparentemente era novidade para ela, em 2015, para as editoras independentes sempre foi algo que acompanhou a produção literária, lado a lado, desde a publicação do primeiro livro.


Apesar disso, vemos grande parte dos leitores investindo na diversidade da produção literária. As editoras independentes, que publicam cerca de 200, 300 exemplares por tiragem, são responsáveis por movimentar e dar vida a grande parte do cenário literário brasileiro. Há uma força e uma peculiaridade no trabalho dessas editoras que não há [mais] nas grandes empresas do ramo. O autor iniciante, por exemplo, se reconhece no outro que acabou de ser publicado; ele vê uma possiblidade real e bem próxima de também ter o seu projeto transformado em livro. E o mais bacana é que o contato com a editora é feito no lançamento de outro autor, em qualquer evento de literatura ou mesmo até numa conversa informal de bar. Indepentemente da forma, é de uma maneira muito mais próxima, leve e tão séria quanto em qualquer outra editora de grande porte.


Se formos colocar na ponta do lápis, e com base na minha pequena experiência com a Pedregulho*, uma editora independente ganha pouco se dispõe o seu catálogo em livrarias – o que é bom para a divulgação da editora, mas financeiramente não é a melhor saída. Muitas livrarias trabalham em regime de consignação, e daí sai uma boa grana [para elas]. A comercialização é um pouco mais complicada, mas adaptável no caso das editoras independentes. Um bom lugar para venda de livros hoje é a internet - às vezes é muito mais recompensador do que a própria consignação em livrarias.
As pequenas editoras ganham em muitos aspectos, como o investimento em projetos gráficos diferenciados e, no caso da Pedregulho, por exemplo, que não publica uma grande quantidade de livros por ano, nós fazemos questão de manter um contato direto com o autor e deixar que ele participe dos processos de feitura do seu livro. Consideramos bastante importante esse contato. É necessário que o autor veja o seu trabalho sendo valorizado antes de ser impresso.


As pequenas tiragens são supervisionadas com mais facilidade e carinho. Isso, sem dúvidas, evita uma produção barata e ruim. Se você apresenta uma obra com um projeto gráfico pensado exclusivamente para ela, com certeza ganhará leitores espontâneos. A literatura feita de forma independente, para mim, é mais valiosa de todas. As grandes empresas do mercado literário provavelmente já perderam o encanto de ver um livro pronto. A coisa ficou mais comercial. Para nós, pequenos editores, é de disparar o coração quando um livro sai do forno.



Marília Carreiro Fernandes é mãe da Editora Pedregulho. Formada em Letras, escreve umas coisas aí, tem dois livros publicados e está quebrando a cabeça para terminar o terceiro livro.


Editora Pedregulho foi fundada em 2013, em Vitória/ES e tem, como objetivo, publicar literatura de qualidade e auxiliar novos autores na publicações das suas primeiras obras literárias. A Pedregulho investe em projetos diferenciados e ideias para acrescentar ao mercado literário nacional.

RELACIONADOS

NOTÍCIAS

BALANÇO DE AÇÕES ASSÉDIO COLETIVO

Como forma de colaborar com a articulação em rede e, ao mesmo tempo, registrar o histórico de ações do Assédio Coletivo, estão disponíveis os balanções de ações anuais! Neles voc~e pode conferir todas as ações realizadas, parceiros acionad…
LEIA +
NOTÍCIAS

NO SE GANA, PERO SE GOZA

Quando duas amigas da Ufes me convidaram pra participar de um coletivo, pra fazer uns impressos, eu não fazia a menor ideia no que eu tava me metendo. Não sabia nem o que era um “coletivo”, mas fingia que sabia. Muitas reuniões, conversas,…
LEIA +
COLABORADORES

A POLÍTICA CULTURAL E OS “GRANDES PROJETOS” NO ESPÍRITO SANTO

As últimas semanas foram marcadas por importantes acontecimentos no que concerne às políticas públicas voltadas para Cultura no Espírito Santo. A ocupação da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), que durou 8 dias, foi um ato histórico …
LEIA +